|Resenha| A Fúria e a Aurora

Acho que quem vem acompanhando o que eu ando lendo já percebeu que eu ando na minha fase de retellings. Eu simplesmente não consigo resistir à um livro que conta de forma um pouquinho diferente uma história clássica que eu já conheço. E esse livro aqui não foge à essa regra, é um retelling de As Mil e Uma Noites, um conto lá da antiga Pérsia que todo mundo conhece mas não sabe que conhece.

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The Wrath and The Dawn (A Ira e O Amanhecer), de Renée Ahdieh, conta a história de um rei que casa com uma menina nova a cada noite e a mata no amanhecer do dia seguinte com uma corda no pescoço. As meninas são escolhidas aleatoriamente e, uma vez que convocadas, não há volta. Essa situação já acontece há algum tempo e ninguém parece ter uma boa explicação para isso além da de que o rei de 18 anos, Khalid, é um monstro.

A história começa quando Shahrzad decide se voluntariar para ser a próxima vítima do rei. Ela faz isso por dois motivos: o primeiro é que ela pensa ter uma solução para viver mais do que uma noite no palácio; e o segundo é porque Shahrzad, ou Shazi, quer vingar sua melhor amiga que foi escolhida para casar com o rei e morreu há algumas semanas com a corda no pescoço.

Shazi nos é apresentada como uma personagem principal extremamente forte. Além de ter uma cabeça bem focada e não ter medo de falar o que pensa, ela é excepcional no arco e flecha e possui reflexos rápidos. Todo esse conjunto faz com que ela se sinta segura de que consegue matar o rei. Até o momento em que ela chega no palácio e descobre que, na verdade, o rei é o segundo melhor espadachim do reino – o que dificulta um pouco seu plano.

Assim que a primeira noite chega, Shazi finalmente se vê sozinha com o rei e, para prender sua atenção durante os momentos que antecedem o amanhecer, ela resolve lhe contar uma história para passar o tempo. É nesse momento em que ela conta uma fantástica aventura sobre um ladrão que escapa de um reino e acaba achando uma lâmpada em uma ilha amaldiçoada. Quando chega no ponto da história em que descobriremos quem é o ladrão, o dia amanhece e Shazi para de contar a história, dizendo que só iria continuar na noite seguinte. Intrigado pela situação e curioso pela história, o rei permite a Shazi mais um dia de vida, fazendo com que ela seja a primeira mulher a sobreviver mais de uma noite.

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As noites seguintes vão se desenrolando da mesma forma, enquanto Shazi tenta arquitetar um plano para matar o rei e vingar sua amiga. Enquanto isso, sua convivência no palácio acaba mudando o comportamento do rei e eles passam a se conhecer melhor. Então, tudo o que parecia muito simples e claro na cabeça de Shazi passa a mudar para uma história cheia de segredos e explicações que fazem a menina repensar tudo o que sabia até então.

“O que você está fazendo comigo, sua praga de menina?” ele sussurrou.
“Se eu sou uma praga, então você deveria manter distância, a não ser que você planeja ser destruído.” Com as armas ainda em seu aperto, ela as empurrou contra o peito dele.
“Não.” As mãos dele desceram para a cintura dela. “Me destrua.”

É um livro encantador e muito difícil de largar. A autora escreve com tanta facilidade e criou novas explicações para uma história tão antiga que é quase uma narrativa inteira nova. Além disso, todas as descrições de roupas, cenários e até comidas remetem muito à cultura oriental e mostram a real beleza por trás de todo o Oriente Médio.

Os diálogos entre os personagens também são muito bem construídos, sendo que Shazi sempre tem uma resposta rápida e inteligente para tudo o que lhe falam, nunca tendo medo de falar qualquer coisa que pense, nem com o inimigo ou pessoas que nem conhecem. É assim que a personagem se torna um ícone em termos de força feminina e mostra que nada é impossível.

“Algumas coisas existem em nossas vidas por apenas um breve momento. E nós precisamos deixa-las ir para iluminar outro céu.”

Os personagens secundários, porém, não tem tanto destaque quanto eu gostaria que tivessem, mas imagino que isso aconteça apenas no primeiro livro. O segundo livro da duologia sai nos Estados Unidos esse ano ainda e imagino que ele vá explorar os outros personagens e mostrar como suas histórias vão interferir no romance desenvolvido entre Shazi e Khalid.

“Amor é – uma sombra do que eu sinto.”

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Por fim, acho legal mencionar uma coisa que talvez nem todo mundo saiba: no conto original de As Mil e Uma Noites, a personagem de Shazi mantém o rei entretido lhe contando histórias durante noites e é daí que surgiram narrativas famosas que conhecemos até hoje, como Aladdin e a lâmpada mágica, Ali Babba e os quarenta ladrões e Simbad, o rei dos mares. Achei muito interessante que sejam histórias dentro de outra história e, em The Wrath and the Dawn, Shazi também nos conta outras versões destas histórias clássicas.

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Infelizmente, The Wrath and The Dawn não tem previsão de lançamento aqui no Brasil ainda, apesar de o segundo livro ser publicado esse ano nos Estados Unidos. Para quem tem interesse em ler em inglês, a linguagem é um pouco mais complicadinha, mas o próprio livro tem um glossário dos termos orientais no final para te situar um pouco melhor. Oremos para que alguma editora também se encante por essa história linda e traduza logo!

[UPDATE: A editora Globo Alt acabou de traduzir esse livro LINDO e lançar aqui no Brasil, com o nome de A Fúria e a Aurora.]

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A Fúria e a Aurora
Autora: Renée Ahdieh
Páginas: 336
Editora: Globo Alt

10 thoughts on “|Resenha| A Fúria e a Aurora

  1. Parece bem legal, eu tenho o primeiro volume de uma série do “texto original” e achei muito interessante, porque são histórias dentro de histórias. Ainda não terminei de ler e preciso completar minha coleção. Gostei do texto! beijos

  2. Que livro lindo! Parabéns pela resenha! A premissa parece bem interessante, como você mesmo falou é bem legal quando pegamos um livro para ler e “parece” com outra história semelhante, porém com mudanças… Fiquei curiosa com a leitura. Bjss

  3. Olá! Que livro lindo! Fiquei encantada com a diagramação e amei como você tirou as fotos! Eu gosto bastante de Mil e Uma Noites e acho super legal as releituras que são feitas, dão um Up sempre. Fiquei interessada em ler ele. Beijos!!

  4. Tem como amar muito uma resenha? Pois é, acabou de acontecer isso comigo e sua resenha! Amei, amei e amei <3 Estou bastante surpresa em saber que existe este outro livro recontando sobre um clássico que muitas pessoas conhecem. Nunca cheguei a ler, mas sei do que se trata, então a resenha não fora de uma novidade para mim em relação ao enredo. AMEI as fotografias e estou apaixonada por elas hahaha Espero um dia ter a oportunidade de ler esse livro e os demais que irão lançar!
    Beeijos e parabéns pela resenha, sério <3

  5. Tô louca pra ler esse livro, encontrei sua resenha via skoob… Sabe o que sempre me intriga? As edições traduzidas para PTBR sempre tem muito menos páginas do que os livros importados como o seu. Será que interferem de alguma forma nos textos?

    1. Esse livro é maravilhoso mesmo <3
      Na verdade, eu acho que é puramente a diagramação interna das páginas. Eu já li alguns livros em inglês e reli em português até pra ter um senso de comparação e elas tendem a ser traduções bem fieis. Acho que é só o espaço da páginas mesmo. Por exemplo, aqui no Brasil, costuma ter bem pouco espaço nas laterais e em cima, mas as edições em inglês são super espaçadas e bem menos espaço escrito mesmo.
      Imagino que seja isso 🙂
      Beijos!

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