|Resenha| O Beijo No Asfalto

Depois de o meu irmão me perguntar sobre esse livro no ano passado, eu acabei ficando com ele na cabeça e resolvi reler para resenhar. A primeira vez que eu li ele foi provavelmente na metade do ensino fundamental como uma leitura obrigatória para a escola, mas me lembro de ter gostado bastante na época.

Desde então, não me lembro de ouvir muitos comentários sobre ele, mas enquanto andava com ele nas mãos durante os últimos dias para reler, todo mundo com quem eu encontrava tinha algo a dizer sobre o livro. As opiniões variavam, o que me fez ficar bem interessada sobre a imagem que as pessoas tem tanto sobre Nelson Rodrigues quanto sobre a imprensa.

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O Beijo No Asfalto, de Nelson Rodrigues é descrito como uma tragédia carioca e traz, na verdade, uma grande crítica à imprensa brasileira e a como todas as histórias são fabricadas.

O livro conta a história de Arandir, que vê um homem ser atropelado por um ônibus. Ao ser o primeiro a chegar ao acidente, o homem pede um último desejo final, que Arandir atende sem demoras, antes de falecer: um beijo na boca.

A trama se desenrola porque um jornalista, Amado Ribeiro, estava perto e viu toda a cena acontecendo. Se aproveitando da situação toda, o jornalista e um delegado, Cunha, se juntam para lançar uma série de matérias sensacionalistas sobre o ocorrido com o intuito de ganhar dinheiro às custas de uma mentira.

“Manja. Quando eu vi o rapaz dar o beijo. Homem beijando homem. No asfalto. Praça da Bandeira. Gente assim. Me deu um troço, uma ideia genial. De repente, Cunha, vamos sacudir esta cidade! Eu e você, nós dois! Cunha.”

Por se tratar de uma peça de teatro, o livro se torna uma leitura extremamente rápida. Além disso, tem apenas 79 páginas que são divididas em três atos. O primeiro é basicamente contando para o leitor sobre o tal do beijo no asfalto e como ele realmente aconteceu. Já durante o segundo ato, o autor explora a forma com a qual a sociedade reage a um beijo entre dois homens no meio da rua. Isso inclui todos que tem contato com Arandir, desde sua mulher, cunhada e sogro, até as pessoas do trabalho ou estranhos na rua/ônibus.

Tenho que admitir que achei esse livro sensacional. Principalmente por ele ser tão atual, mesmo tendo sendo escrito em 1960. Temas como a ética dos jornalistas vêm sido debatidos já há muito tempo e parece que ainda assim existem muitas matérias fabricadas ou sensacionalistas rodando nos jornais. É um dos motivos que faz com que a mídia se auto desvalorize, uma vez que várias pessoas sentem que não podem confiar no que lhes é mostrado. Sendo formada em jornalismo, esse livro teve um grande impacto em mim e sobre como pessoas que estudaram as mesmas coisas que eu se comportam na vida profissional.

Além disso, o livro também dá muito foco a outro tema recorrente: homossexualidade. Isso serve para mostrar, em primeiro lugar, como já é um tema debatido há um bom tempo e, em segundo lugar, como a nossa sociedade progrediu como um todo. Admito que estamos muito longe do ideal, mas só de perceber que algumas pessoas de gerações mais novas estão mais abertas a sexualidades diferentes das suas, fico pensando que qualquer mudança, mesmo que não seja total, deve ser considerada como boa.

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Nelson Rodrigues é famoso por conseguir colocar o dedo nas feridas da sociedade e expô-los assim como vê, sem nenhuma mudança para embelezar os fatos. O Beijo No Asfalto retrata muito também sobre como é o próprio autor.

Por fim, além de tudo isso, fiquei muito feliz em ver que há um novo musical sobre o próprio livro que se apresenta na próxima semana em Curitiba, como parte do Festival de Teatro de Curitiba. As apresentações serão na segunda e terça-feira, dias 28 e 29 respectivamente, na Ópera de Arame. Quem tiver interesse, pode conferir mais informações aqui no site. Pra fechar, fica aqui o clipe oficial de uma das músicas:

O Beijo No Asfalto
Autor: Nelson Rodrigues
Páginas: 95
Editora: Nova Fronteira

One thought on “|Resenha| O Beijo No Asfalto

  1. Oi, tudo bem? Gostei muito da sua resenha, eu estou trabalhando com a obra na faculdade 🙂
    Porém o que eu tenho pra dizer não é sobre a obra, é sobre um termo que você usou na resenha, que é “homossexualismo”. Tal termo é considerado pejorativo pois remete a doença, então seria pertinente que, se possível, você alterasse para “homossexualidade”

    Parabéns novamente pelo blog!!
    Abraço..

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