|Resenha| Lucas

“Stories aren’t facts, Cait, they’re not details. Stories are feelings. You’ve got your feelings, haven’t you?”
“Too many,” I said.
“Well, that’s all you need.” He put his hand on mine. “Cry yourself a story, love. It works. Believe me.”
So that’s what I did, I cried myself a story.
And this is it.”

“Histórias não são fatos, Cait, não são detalhes. Histórias são sentimentos. Você tem sentimentos, não tem?”
“Até demais,” eu disse.
“Bem, é só disso que precisa.” Ele coloca sua mão sobre a minha. “Chore uma história, amor. Funciona. Acredite.”
Então foi o que eu fiz, eu chorei uma história.
E aqui está.”

Lucas é um livro que surgiu assim, bem de mansinho e bem de repente na minha vida. Eu nunca tinha ouvido falar dele nem do autor e foi quando eu ganhei de presente de aniversário que eu tive a minha primeira impressão dele. Okay, é um livro. Não dizia muito na contracapa, mas só por ter sido um presente tão bem pensado, me deixou levemente curiosa.

Então eu resolvi abrir a primeira página para dar uma olhada no que achava; a segunda página veio rapidamente em seguida, depois o terceiro capítulo e quando eu me dei conta, faltavam só 10 páginas pra terminar e eu não sabia o que fazer com a minha vida e nem como ela tinha dado esse reviravolta tão grande.

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Esse livro conta a história de Caitlin McCann, uma inglesa de 15 anos que mora em uma ilha isolada da Inglaterra com seu pai. Depois de perder sua mãe em um acidente de carro e do irmão mais velho ter ido estudar em Liverpool, Cait vê seu pequeno mundo de pré-adolescente bem estabelecido com uma melhor amiga e a rotina que ela criou com o tempo.

Porém, quando tudo parece calmo e estável é que o mundo de Cait começa a desmoronar lentamente. Seu irmão volta para as férias e, juntamente com a melhor amiga de Cait, começa a sair com pessoas diferentes, beber, se tornar agressivo e tratar todos ao seu redor diferente.

É no meio dessa confusão emocional já existente que Cait encontra um menino novo na ilha: Lucas. Nômade, órfão, independente, loiro, de olhos claros e sempre usando verde, Lucas nem sempre é bem compreendido por toda a sociedade como apenas um menino levando sua vida como prefere.

Mesmo que Cait esteja rapidamente gostando de Lucas, não é da mesma forma que os outros adolescentes veem ele. Lucas é tratado como um estrangeiro, geralmente chamado de “cigano” como um termo pejorativo, e é até acertado na cabeça por jovens lhe jogando pedras. Cait não concorda com a agressividade da sociedade, mas não faz grandes esforços para mudar algo… Até o dia em que Lucas é acusado de um crime que não cometeu e Cait se vê obrigada a tomar uma decisão: defender o que acredita, mesmo que isso lhe traga consequências ou sofrer calada enquanto um inocente é condenado injustamente.

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Em uma primeira análise, o livro contado pelo ponto de vista de Cait é muito fácil de se relacionar. Assim como todo mundo já passou por um momento difícil na vida é possível entender o que Cait está passando, principalmente ao entrar na adolescência e mudar sua visão de mundo. Alguns amigos mudam o jeito de fazer as coisas e é difícil pensar em como reagir a todas as mudanças que a adolescência traz.

Lucas é uma daquelas histórias que, à medida que eu lia, eu ainda não tinha certeza do que esperar e definitivamente me surpreendeu do começo ao fim.

É um livro que trata daquele turbilhão de emoções que a gente sente às vezes e não sabe muito bem como lidar (e pode ter certeza que ele vai fazer você sentir todas elas de novo). A inocência, a alegria, o amor; a saudade, a solidão, a decepção. O luto.

It won’t make you feel any better, he told me, it might even make things worse for a while. But you mustn’t let the sadness die inside you. You have to give it some life.

Não vai fazer você se sentir melhor, ele me disse, pode até deixar as coisas piores por um tempo. Mas você não pode deixar a tristeza morrer dentro de você. Você tem que lhe dar um pouco de vida.

Além disso, todo o drama envolvido no crime que Lucas não cometeu me lembrou uma versão britânica e mais adolescente de O Sol É Para Todos. Os crimes cometidos por inocentes que se veem em uma situação complicada apenas por serem diferentes são bem similares. Sempre gosto mais de livros que tragam esse senso crítico sobre como a sociedade molda padrões para cada época e como tudo o que foge disso é repudiado. Acho importante que as pessoas enxerguem que não é porque algo é diferente de você que seja errado. O livro transmite essa mensagem de uma forma muito emocionante e angustiante ao mesmo tempo.

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Lucas é uma história de amadurecimento com a qual qualquer pessoa pode se relacionar. É sobre crescer e finalmente tomar uma decisão que vai mudar a sua vida. Sobre escolher suas batalhas e amadurecer. Sobre como a sociedade molda as pessoas e sobre preconceito. Sobre saber o que é importante para você e o que defender, sobre conseguir diferenciar o certo do errado e não ter medo de erguer sua voz.

É um daqueles livros que eu tenho vontade de abrir as janelas e gritar: “Mundo, você precisa ler isso!”

Lucas
Autor: Kevin Brooks
Páginas: 384
Editora: Rocco

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