De volta para o passado

Você pode tentar se preparar pra esse momento várias vezes, dar o replay nas imagens da sua mente sobre como poderia ser, como você imagina que vai funcionar. Mas a grande verdade é que nada te prepara pra voltar de um intercâmbio.

Muita gente fala sobre ir, explorar novas possibilidades, ver o mundo afora, o friozinho na barriga que dá. Será que vai dar tudo certo? Você vai se adaptar? Fazer boa viagem? Amigos? Mas ninguém te conta que essa é a parte fácil. Ir é fácil. Largar toda uma vida pra trás pra recriar uma outra do jeitinho que você quiser é relativamente fácil.

O difícil é voltar pra essa vida que você deixou pra trás. Porque você deixou pra trás, mas as pessoas que ficaram continuaram vivendo essa vida.

E agora o contexto mudou, as pessoas não são mais as mesmas, a cidade tem outra cara, as ruas mudaram de mão e o seu quarto já não parece mais tão familiar assim. E, muito mais do que isso, você não é mais o mesmo. Você pode lutar o quanto quiser sobre essa verdade incontestável, mas no fim vai perceber que sim, você mudou. É nos pequenos detalhes que você percebe, numa palavra não dita, em um pensamento contraditório, ao não reconhecer os livros em destaque na sua livraria favorita.

É um sentimento estranho. Não necessariamente ruim o tempo todo. Na verdade, a primeira semana deve ser a melhor. Você revê pessoas que ficaram na sua memória e mata todas as saudades sem a intervenção de um computador ou um celular.

E é tudo lindo, é como se você revivesse todos e somente os momentos maravilhosos que passou com fotos, histórias e risadas com as pessoas que sempre pertenceram ao seu lado.

Mas depois de um tempo, quando não é mais novidade e você tem que enfiar um ano de experiências, novas opiniões e uma nova visão de mundo no fundo da sua gaveta de cabeceira, do lado das fotos de recordação e bilhetes aéreos usados e voltar pra sua rotina anterior, você percebe que não é a tarefa mais simples do mundo.

Tudo isso somado a uma pilha de livros, várias roupas e algumas ideias que você tinha e agora não tem noção de em qual armário enfiar e se ao menos vai caber.

Você começa a se perguntar se é assim só com você mesmo, se foi você quem mudou ou foi o mundo. E aí vem o choque de realidade, quando você só quer gritar: “Ok, já entendi, para o mundo só um segundinho pra eu recuperar meu fôlego.”

É mais ou menos por aqui que você entende que todas aquelas imagens de como seria quando você voltasse nunca podiam ser reais, nunca nem tiveram chance. Porque tudo mudou e você nem sabia, não tinha como imaginar essa realidade diferente.

E, se ninguém te disse isso ainda, aqui vai a dura realidade: está tudo bem.

Sim, é assim mesmo, não se assuste. Agora sim é que muitos conceitos seus vão mudar, quando eles são colocados em prática frente a frente com os antigos. Agora o seu jeito de ver as coisas vai mudar, até o jeito de ver a si mesma.

Aquela sua tão comentada nova independência não vale pra nada em algumas situações e, em outras, é tudo o que você tem pra se agarrar.

E você vai descobrir também que nem tudo o que você aprendeu se aplica aqui e que nem todo mundo quer saber sobre as suas mudanças. E isso pode ser difícil de conter às vezes, porque você quer dividir suas visões com as pessoas próximas.

Mas no meio dessa bagunça que é essa tal “fase de adaptação”, você vai encontrar alguma coisa, um pequeno detalhe (seja uma memória ou algo novo que você acabou de perceber) que vai manter sua esperança acesa.

Não é tão ruim assim. Também não é tão bom assim. É só…diferente.

 

Leave a Reply

Your email address will not be published. Required fields are marked *