|Resenha| Cidades de Papel

“It is so hard to leave – until you leave. And then it is the easiest goddamned thing in the world.”

É muito difícil ir embora – até você ir embora de fato. E então ir embora se torna simplesmente a coisa mais fácil do mundo.

Acho que esse ficou sendo um dos meus quotes favoritos do livro Paper Towns do John Green. É verdade: sair é tão difícil – sair da sua cidade, da sua zona de conforto, de onde você está no momento. Mas isso é só até o ponto em que você dá o primeiro passo. E aí, é a melhor coisa do mundo.

Essa é a promessa do livro: mostrar como as pessoas estão presas em uma rotina sem nem mesmo perceberem e sem terem a mínima vontade de sair. Como as pessoas ficam presas nas tais “Cidades de Papel”, onde tudo tem apenas duas dimensões e são frágeis e fúteis como folhas de papel.

E, para dar o primeiro passo para fora dessa rotina, Margo convence Quentin a passar uma madrugada inteira com ela realizando 11 tarefas. Durante essa noite épica, Quentin se apaixona mais ainda pela personagem meio maluca e de espírito livre que é Margo.

O problema é que, no dia seguinte, a menina desaparece da cidade, como já havia feito algumas vezes na vida. E aí começa a busca de Quentin por pistas que Margo possa ter deixado para trás de onde encontrá-la.

IMG_2333

Apesar de eu ter achado Quentin um tanto quanto egoísta em relação aos seus amigos, ele ainda foi a parte mais interessante do livro. Posso até arriscar e dizer que ele é o meu personagem favorito de todos os livros do John Green que eu li até agora. Achei ele interessante e um exemplo clássico da teoria do livro colocada em prática. É a luta de uma pessoa de papel que, no começo nem percebe sua situação, mas que se desenvolve muito bem e evolui muito durante a história.

Muita gente comenta sobre a Margo e o espírito livre, mas, ao invés disso, eu achei ela uma personagem fraca e uma prima muito parecida da Alasca, do outro livro do John Green, Quem É Você, Alasca? Eu entendo que ela deveria representar a libertação das pessoas de uma cidade bidimensional em uma jornada de auto conhecimento, mas acho que o Quentin desenvolveu muito mais esse lado do que a própria Margo.

No final, a Margo apenas me representou uma personagem que não tinha um objetivo muito claro e que só foi necessária para o auto conhecimento de outros personagens (e ainda conseguiu ser um tanto quanto rude no processo). E isso também me lembrou outra personagem de John Green: o escritor amargurado Van Houten, do livro A Culpa É Das Estrelas.

IMG_2334

De uma forma geral, eu achei o livro em si interessante, mas prefiro a parte dois do livro, na qual Quentin passa pela sua jornada sozinho, ao invés das partes nas quais Margo é representada. Na minha opinião, Quentin e Radar são os personagens mais bem pensados na trama toda. Há muito mais dinâmica e eles são os que mais crescem e evoluem com a história.

Eu tenho que admitir que não sou muito fã dos livros do John Green e, a cada um que leio, tenho mais a impressão de que eles não foram feitos pra mim. Geralmente eu acho as ideias e propostas dos livros boas. Mas fico esperando personagens interessantes e que desenvolvam a narrativa e acabo achando todos eles repetitivos e, ao final da jornada, vazios.

Mas acho que continuo tentando ler os livros dele por dois motivos: um, quero entender porque é que tanta gente assim ama e jura pelos livros dele; e dois, porque admito que ele sempre tem, em algum livro, uma passagem que eu acho muito inteligente e que me marca.

No caso de Paper Towns, é justamente sobre a relação de amizade entre Quentin, Radar e Ben. E, na verdade, também diz muito sobre a minha relação com os meus amigos, e eu imagino que isso se aplique a muitas pessoas. O grande erro de qualquer relacionamento, e um que acontece constantemente, é esperar que as outras pessoas tenham as atitudes que você esperava que eles tivessem. Nós geralmente criamos uma imagem de uma pessoa que não necessariamente corresponda à realidade e depositamos muita esperança nela. Quentin cria essa imagem idealizada da Margo e começa o livro dizendo que ela é o milagre dele. Mas ao decorrer do livro, ele percebe o quão errado é pressionar as pessoas baseado em suas expectativas. Afinal, pessoas são só pessoas.

IMG_2335

É aquela velha história de: “Eu faço isso por ele, por que ele não pode fazer por mim?”. E acho que o John Green fez um ótimo trabalho respondendo essa pergunta:

“You know your problem, Quentin? You keep expecting people not to be themselves. I mean, I could hate you for being massively unpunctual and for never being interested in anything other than Margo Roth Spiegelman, and for, like, never asking me about how it’s going with my girlfriend – but I don’t give a shit, man, because you’re you.

Sabe qual é seu problema Quentin? Você espera que as pessoas não sejam elas mesmas. Quer dizer, eu podia odiar você por ser tão pouco pontual e por nunca se interessar por nada que não seja Margo Roth Spiegelman, e por tipo, nunca me perguntar como estão indo as coisas com minha namorada…Mas não ligo cara, porque você é você.

Cidades de Papel
Autor: John Green
Páginas: 368
Editora: Intrínseca

Leave a Reply

Your email address will not be published. Required fields are marked *